Muito além do azul e rosa

Muito além do azul e rosa

10 Janeiro 2019 - 18:39
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A perigosa ideologia que está por trás de uma fala, aparentemente, sem sentido

Azul e Rosa

Semana passada um vídeo da Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, causou grande polêmica. Nele, Damares declara com empolgação o início de uma nova era, onde meninas vestem rosa e meninos vestem azul. As redes sociais bombaram com a quantidade de reações à declaração. Muitas dessas reações, indignadas com a pretensão da Ministra em querer definir o que cada pessoa deve vestir, mostravam postagens com fotos de homens e mulheres “desobedecendo a regra”.  Outras tantas reações, em apoio a ela, reforçando a ideia de que meninos e meninas devem ter certas diferenças ao escolher uma cor.  Mas também surgiram alguns importantes posicionamentos sobre o que, de fato, este tipo de discurso representa. E é exatamente isso que eu quero compartilhar com vocês. 

Muito além do azul e rosa, este discurso da nova Ministra reflete uma ideologia muito mais séria. E não quero culpar apenas a Damares por esse tipo de pensamento. Ela não chegou a um cargo tão importante sem um propósito. Ela chegou lá junto com um plano de governo que traz ideias extremamente conservadoras, machistas, homofóbicas e preconceituosas. Não se trata de uma nova era, mas apenas da reafirmação de algo que já vivemos há muito tempo e contra o qual lutamos todos os dias. 

É um discurso com grande viés econômico, quando fala de papéis distintos para homens e mulheres. Damares já deu entrevistas onde afirma que o principal papel da mulher é ser mãe e que ela deveria cuidar da casa enquanto o homem vai trabalhar para trazer o sustento da família. Ela fala sobre príncipes e princesas reforçando ideias ultrapassadas de que homens podem fazer coisas que mulheres não podem. 

Nós, mulheres, somos chefes de família e criamos nossos filhos, muitas vezes, com uma realidade de pais ausentes e que não pagam sequer a pensão devida. Damos conta de trabalho, casa, filhos e estudo. Lidamos com o fato de ainda recebermos salários menores do que os homens e não conseguirmos brigar pelos mesmos cargos de liderança. Seguimos com garra mesmo vendo o olhar torto nas empresas quando temos que sair correndo para acudir um filho que ficou doente. Buscamos coragem quando engravidamos e nossa competência começa a ser questionada. Temos que enfrentar de cabeça erguida todos os dias, olhares de julgamento e comentários maldosos sobre cada uma de nossas escolhas. Porque já vivemos há muito tempo em uma sociedade machista que define o que é normal para um homem e uma mulher e tenta nos colocar em uma caixinha com regras bem definidas, cerceando, inclusive nossos direitos reprodutivos. Mas eu quero te dizer, minha irmã, que nós podemos tudo. E é por isso que nós nos posicionamos e lutamos por uma educação emancipadora para meninos e meninas.

Não adianta falar que as crianças serão prioridade de um plano de governo se não houver preocupação com o que de fato as afeta: políticas públicas que combatam a fome, que visem uma educação de qualidade para todos, que priorizem espaços para o seu desenvolvimento através do brincar e de práticas esportivas.  O pensamento retrógrado inventa um inimigo e não as protege da violência doméstica, dos abusos (que em sua maioria acontecem dentro do círculo de confiança das crianças como família e conhecidos), da violência estatal que sofrem as crianças na periferia e nos morros (crianças negras em sua maioria), do abandono paterno que as afetas com a carência emocional e de suprimentos. 

Inventa-se o fantasma da ideologia de gênero (não, ideologia de gênero não existe e nunca foi implantada em nenhuma escola) para que se proíba as discussões de gênero que vão falar exatamente sobre o fato de que mulheres e homens são iguais e que devem ter os mesmos direitos e deveres (está lá na Constituição), sobre o respeito ao próximo e a violência contra a mulher. Educação sexual (e não aula de sexo como diz outro fantasma inventado por aí), vai ensinar sobre sexo seguro, prevenção às DSTs e gravidez precoce. Educação sexual fala sobre consentimento explicando que ninguém deve ser obrigado a fazer o que não quer e que, por isso mesmo, meninos precisam saber respeitar o corpinho alheio. Educação sexual vai explicar para crianças o que é uma situação de abuso fazendo com que elas possam se proteger e denunciar um agressor, sendo de extrema importância. E que bom que seja abordado o respeito à orientação sexual e identidade de gênero de cada um para que as próximas gerações mudem nossos assustadores índices de assassinatos de transexuais, por exemplo.    

Como mães, bem sabemos a luta diária que temos para desconstruir discursos machistas e preconceituosos. Ensinar nossas crianças que devemos respeitar o próximo independente de sua orientação sexual. Dia após dia dizer que aquela zoação com quem é diferente de nós é uma grande falta de respeito e que devemos tratar a todos como gostaríamos de ser tratados. Reafirmar para as meninas que elas podem ser o que quiserem nessa vida, inclusive engenheiras e astronautas. Que casar e ter filhos é apenas uma opção e não uma obrigação. Que meninos devem respeitar o corpo das outras pessoas e, quando crescerem, tudo deve ser feito com o consentimento do seu parceiro (a). Que eles também devem cuidar das crianças, cozinhar, limpar a casa e as roupas. Que tudo isso é tarefa da família e não dever relacionado ao gênero. 

Temos aí um trabalho ainda maior do que esse já nosso conhecido. A gente precisa se posicionar e se tornar resistência a toda tentativa de reforçar ideais machistas, preconceituosos, misóginos, racistas e homofóbicos. Que possamos lutar pelo o que realmente é importante para nossas crianças.

Alessandra Rebecchi é jornalista e mestre em Comunicação